Nos artigos anteriores da série falamos sobre SDD (Spec-Driven Development) e como aplicar quality gates, testes e templates. Agora vou mostrar algo que não encontrei documentado de forma clara em lugar nenhum: o fluxo completo do BMAD, passo a passo, mostrando como os agentes de IA se organizam pra entregar código de produção.
O que é o BMAD?#
O BMAD (Breakthrough Method for Agile AI-Driven Development) é um framework open source que organiza agentes de IA como se fossem um time ágil. Cada agente assume um papel, PM, Arquiteto, Dev, QA e executa uma parte específica do fluxo de desenvolvimento.
O ponto central é: você não diz “faz aí” pra IA. Você segue um fluxo onde cada fase produz artefatos que alimentam a próxima, e cada agente de IA sabe exatamente o que fazer porque tem contexto estruturado.
Os Agentes#
Antes de entrar no fluxo, vale conhecer quem faz o quê. Lembrando: são todos agentes de IA, não pessoas reais.
| Agente de IA | Papel | O que faz |
|---|---|---|
| Analista | Discovery | Pesquisa de domínio, mercado, concorrência |
| PM | Planejamento | Cria PRD com requisitos funcionais e não-funcionais |
| UX Designer | Design | Cria specs de UX, componentes, padrões de interação |
| Arquiteto | Solucionamento | Toma decisões técnicas (ADRs), valida prontidão |
| Scrum Master | Organização | Planeja sprints, cria stories, faz retrospectiva |
| Dev | Implementação | Executa stories usando TDD |
| QA | Qualidade | Estratégia de testes, automação |
| Solo Dev | Quick Flow | Faz spec + dev + review pra mudanças pequenas |
Dois Caminhos: Full Method vs. Quick Flow#
A primeira decisão no BMAD é: qual o tamanho da mudança?
- Full Method: passa por todas as fases, com múltiplos agentes de IA colaborando
- Quick Flow: um único agente (Solo Dev) faz spec + dev + review
Essa separação é fundamental. Sem ela, você acaba usando o processo completo pra corrigir um typo, ou pior, fazendo uma feature complexa sem specs.
Full Method: O Fluxo Completo#
Greenfield (Projeto Novo)#
Quando o projeto é novo, começamos do zero, da análise até a implementação:
Fase 1 — Análise (Agente Analista)
O agente Analista faz a pesquisa inicial: domínio, mercado, concorrência, viabilidade técnica. Produz o Product Brief com visão, personas e métricas de sucesso.
Fase 2 — Planejamento (Agentes PM e UX Designer)
O agente PM cria o PRD (Product Requirements Document) com todos os requisitos funcionais em formato Given/When/Then. Se o projeto tem UI, o agente UX Designer cria as specs de design: componentes, padrões de interação, design system.
Fase 3 — Solucionamento (Agente Arquiteto)
O agente Arquiteto toma as decisões técnicas e documenta como ADRs (Architecture Decision Records). Depois, quebra o PRD em epics e stories. No final, roda uma validação de prontidão pra garantir que tudo está alinhado antes de começar a codar.
Fase 4 — Implementação (Agentes SM, Dev e QA)
Aqui é onde o código acontece:
- O agente Scrum Master planeja o sprint e cria os arquivos de story com contexto completo
- O agente Arquiteto valida a Definition of Ready de cada story
- O agente Dev implementa usando TDD: RED -> GREEN -> REFACTOR por AC
- O agente QA faz code review adversarial
- Quality gates: testes + build + type-check
- Commit e sincronização de artefatos
Brownfield (Código Existente)#
Quando já existe código em produção, o fluxo muda. Não precisa de Fase 1 (análise) porque o domínio já é conhecido. O contexto vem do próprio codebase:
A diferença principal: antes de qualquer coisa, você gera um project context, um documento que descreve os padrões, stack, convenções e estrutura do codebase existente. Isso permite que os agentes de IA sigam os padrões que já existem em vez de inventar novos.
Quick Flow: O Caminho Rápido#
Pra mudanças pequenas, bugs, ajustes de config e features simples que mexem em menos de 3 arquivos, o Quick Flow é o caminho.
Um único agente de IA (o Solo Dev) faz tudo:
- Quick Spec: cria uma tech-spec ou story simplificada
- Quick Dev: implementa a mudança
- Code Review: revisa o próprio código de forma adversarial
O Quick Flow não pula quality gates, testes, build e type-check continuam sendo necessários. O que ele pula são as fases de planejamento e solucionamento que não fazem sentido pra mudanças pequenas.
Quando usar Quick Flow vs. Full Method?#
| Cenário | Caminho |
|---|---|
| Bug fix isolado | Quick Flow |
| Ajuste de config | Quick Flow |
| Feature simples (< 3 arquivos) | Quick Flow |
| Feature nova com múltiplos endpoints | Full Method |
| Refactor de arquitetura | Full Method |
| Novo epic ou módulo | Full Method |
| Mudança que afeta segurança/auth | Full Method |
Na dúvida, use o Full Method. É melhor ter specs que não precisava do que código sem specs.
Os Artefatos do Fluxo#
Cada fase produz artefatos que alimentam a próxima. Isso é o que diferencia o BMAD de simplesmente pedir pra IA “faz aí”:
Os artefatos são documentos vivos. Quando a implementação revela que algo precisa mudar nas specs, as specs são atualizadas. Esse feedback loop é o que mantém tudo consistente.
Sprint Status como Fonte da Verdade#
O estado de cada story é rastreado num arquivo central:
development_status:
# Epic 1: Autenticação
epic-1: in-progress
1-1-user-registration: done
1-2-user-login: in-progress
1-3-password-reset: ready-for-dev
1-4-oauth-integration: backlog
# Epic 2: Dashboard
epic-2: backlog
2-1-dashboard-layout: backlog
Os status possíveis seguem um fluxo linear:
O Fluxo de Decisão Completo#
Juntando tudo, o fluxo de decisão do BMAD fica assim:
Considerações finais#
O BMAD não é um framework pra tornar as coisas mais burocráticas. É pra tornar o trabalho com agentes de IA previsível e confiável. Sem um fluxo estruturado, cada sessão é uma loteria, às vezes a IA acerta, às vezes não.
Com o BMAD:
- Mudanças pequenas são rápidas (Quick Flow)
- Mudanças grandes são bem planejadas (Full Method)
- Todo código tem specs, testes e review
- O contexto persiste entre sessões através de artefatos vivos
Se você leu os outros artigos da série sobre SDD, agora tem o quadro completo: o fluxo (este artigo), a filosofia e as práticas.

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